Fasano Turismo Travel Blog África Vermelha Mundial de Clubes 2010 Youtube CasalPix
©2017 Raul Antonio Fagundes Valls. Todos os direitos reservados. Manutenção: Webfront

Deserto do Atacama, Chile

Como tudo começou

Tudo começou numa tarde do verão de 2005 quando voltava de minha caminhada pelas montanhas nos arredores do Hotel e Spa Termas De Reyes, Jujuy, onde encontrei no estacionamento duas Land Rover e uma Cherokee com os seguintes adesivos: “Caravana Javali - Atacama 2005”. O meu sonho de realizar uma aventura semelhante estava ao vivo e a cores frente a meus olhos. Levado pelo entusiasmo me acerquei ao grupo. Resumo do fugaz encontro: o líder e mentor da Caravana, o empresário paulista Vicente Fiuza convidou-nos para jantar e eu retribui o convite para quando de regresso por Uruguaiana, sentissem a hospitalidade do homem de fronteira. Foi uma noitada que entre taças de vinho tinto e fatias de um cordeiro mamão obsequiei meus companheiros das estradas da vida. Foram momentos gratificantes que tiveram consequências em curto prazo. O líder “Fiuzão”, como o chamam carinhosamente, contou-me que tinha seu site com fotos de suas viagens pelo mundo. Observando as minhas fotos, perguntou porque eu não fazia um para mim. E assim aconteceu, mas eu não tinha nem um veículo que fosse capaz de enfrentar as durezas de uma viagem off- road!


Como sempre adorei desafios e sou movido a muita adrenalina, sem dar-me conta fui paulatinamente eliminando os obstáculos que me impediam de realizar uma aventura como a da “Caravana Javali”. Troquei meu carro pouco apropriado para a dimensão de minhas loucuras e adquiri uma 4x4.


Agora, bem calçado com uma V8, faltavam os aventureiros para acompanhar-me. Meu filho Martin, excelente parceiro e amigo, foi o primeiro, pois penso que essas experiências vividas intensamente o transformariam em um viajante solidário e um ser humano mais completo. O segundo foi uma escolha fácil e aceitou rápido. Foi o agrônomo e empresário Conrado Gomes, já parceiro em outra viagem. Com ele e o Martin já havíamos visitado as misteriosas Cuzco e Machu-Pichu. Disse: “marquem o dia, hora e partimos”. O último companheiro caiu do céu. Um colega de profissão, o oftalmologista Hélio Freitas. Gentil, de gênio fácil e um constante bom humor foi o companheiro ideal para a harmonia do grupo. O “Grupo Atacama 2005” estava formado.


Agradeço a Deus os companheiros que me proporcionou e que ele nos guie, proteja e nos mantenha sempre vibrantes em nossas empreitadas, que penso serão muitas. Fomos em busca de aventura. Lemos sobre a historia desses povos, vimos alguns museus e algumas pinturas rupestres, mas principalmente fomos em busca das sensações que a natureza nos proporcionou. Buscávamos emoções. Lugares inóspitos, desertos de sal, altos cumes nevados, lagoas coloridas quase à altura das nuvens, mas também queríamos confraternizar, seja com gringos, mochileiros, aventureiros ou com os povos andinos, tão necessitados de solidariedade.

Primeiro dia: início da jornada

Nosso destino final era o Deserto de Atacama, no limite entre Bolívia e Chile, considerada a região mais seca do planeta. Buscava viver uma aventura, com meus companheiros, mas nunca deixando de lado o foco principal de todas minhas viagens - o ser humano. O espírito universal que norteia minhas viagens aflorava e pensava: “que bom se pudéssemos deixar um amigo em cada canto daquelas paragens tão distantes...”


Aventureiros e mochileiros do mundo inteiro, já cansados do turismo convencional e da agitação dos grandes centros, buscam nessa região momentos de contemplação e encontro consigo mesmo.

Partimos cedo, pois o primeiro “tirão” era longo - Uruguaiana a Salta são 1.270Km. Estava um pouco ansioso mas feliz, porque ia realizar um sonho – fazer uma viagem em 4x4 com muitos trajetos off-road. Era nossa primeira viagem para o site que eu e meu filho Martin criamos, sem pretensão nenhuma, a não ser estimular as pessoas a viajar.

O motor V8 roncava bonitaço e cortava o silêncio de um amanhecer de primavera. Os primeiros 382Km\'s até Corrientes eram velhos conhecidos. Naquela querida cidade iniciei meu curso de medicina. Ao rever o rio Paraná senti um leve aperto no peito, não aquela dor que assusta mas que alivia. A sensação gratificante de voltar no tempo feliz de minha adolescência. Por segundos divago. Vejo a Costaneira (uma constante em toda cidade Argentina que descansa sobre um rio) que acompanha o caudaloso Paraná. A calle Junin das alegres manhãs de sábado, onde os universitários se reuniam. A confeitaria Panambi e a boate Anahi. As serenatas para a mulher Correntina. Lá abracei por primeira vez uma guitarra e aprendi a gostar de chamamé. As excursões do Tênis Clube Rio Branco. Esperávamos ansiosos pelo mês de maio para representar nosso clube na Copa Internacional de Tênis “Maria del Rosário Mendiondo”. Jogávamos no Corrientes Tenis Club, clube que fui sócio e onde deixei bons amigos. Boas lembranças do Jef e do João, meus companheiros de dupla (fomos 8 vezes campeões da prova de veteranos). Lembranças do Fernandinho Fittipaldi e do espírito amigável do grupo. Ao povo correntino que me acolheu com carinho,por quatro anos, minha eterna gratidão. Mudo de assunto porque temos que enfrentar uma monótona e interminável reta de 900Km até Salta.

Cruzamos o rio Paraná pela ponte Gal Belgrano, que une a província de Corrientes e Chaco. Seguimos pela RN16, passando por lugares com nomes estranhos, como Pampa del Infierno, Pampa de los Guanacos e Taco Pozo. Escutando um CD do Jack Johnson do Martin, tiramos de letra as distâncias. Sua juventude e disposição foram fundamental para que conseguíssemos vencer essa longa etapa.

Era noite já quando avistamos as luzes de Salta. Estávamos cansados mas nada que um banho quente não reparasse. Fomos recompensados com as imagens do Centro Histórico todo iluminado. Ainda tivemos fôlego para ir a uma peña folclórica - La Vieja Estacion -, no Paseo da rua Balcarce (uma espécie de peatonal), degustar um locro, empanadas, um pudim de quinoa e escutar alguns clássicos do folclore argentino. Era sábado e as ruas fervilhavam de gente jovem e turistas atrás de diversão. Como sou de carne e osso, as três da matina capotei. Amanhã falaremos mais de Salta.

Segundo dia: Salta - La Linda

Tínhamos um dia livre para caminhar pela histórica Salta, com seus casarões coloniais do tempo do General Martin Guemes (o primeiro caudilho argentino) e palco das lutas pela independência da nação Argentina. Salta era parte do Caminho Real (entre as minas de prata de Potosí e o noroeste argentino).

Foi fundada por D. Hernando de Lerma em 1582 e é a mais hispânica das capitais argentinas. No idioma aymara (sagta) quer dizer La Linda, La muy hermosa. A influência dos idiomas aymara e quechua é uma constante nas províncias do noroeste argentino. Sua riqueza histórica e cultural é herança dos milenares vestígios incaicos e o passado colonial hispânico reflete em sua arquitetura de paredes brancas, tetos de telhados vermelhos, azulejos, grades de ferro e pátios ensolarados.


Placa na entrada da cidade

Iniciamos nosso recorrido pela Plaza “9 de Julio” e seus arredores. É o Centro Histórico, com sua Catedral Basílica, o Cabildo, a Igreja de San Francisco com sua belíssima torre, e o convento de San Bernardo, com seu portal talhado a mão pelos índios em 1762. Todo o conjunto deve ser admirado primeiro à noite. O impacto é grande. Me atrevo a dizer, que, ademais de ser chamada La Linda, Salta tem um ar senhorial.

Contarei a vocês minhas impressões pessoais e a de meus companheiros, o que mais nos tocou. O roteiro completo e minucioso dos lugares visitados se encontra em todos os sites de turismo e ao alcance de todos. Para sentir a alma da cidade necessita o viajante de no mínimo duas noites, se possível um fim de semana.


Catedral, centro histórico

Percorrendo a noite, em suas Peñas, você encontra o verdadeiro espírito daquela cidade histórica e orgulhosa de seu passado. Salta é reconhecida como terra de poetas, músicos e cantores. Sua renomada gastronomia, com especialidades a base de milho (tamales, humitas), quinoa (cereal cultivado a 1.700msnm) e feijão branco, é uma herança incaica milenar. O “locro” e as empanadas criollas são seus pratos mais típicos.

Aproveitamos o domingo, que era o dia das mães na Argentina, para visitar San Lorenzo, bonito bairro residencial, no Valle de Lerma, a escassos quilômetros da cidade. Como bons viajantes, perguntando bastante, chegamos ao agradável restaurante Andrés de San Lorenzo. Almoçamos como príncipes e brindamos com um Torrontés bem gelado com o próprio Andrés.


Confraternizando com Andrés San Lorenzo

Encerramos a jornada com um happy hour, num bar da praça “9 de Julio”, admirando a Catedral iluminada. Até amanhã.

Lugares para visitar

  • Cerro San Bernardo com o teleférico
  • Casa de Arias Rengel (Museo de Belas Artes)
  • Casa de Hernándes (Museo da Cidade)
  • Museo “Pajarito Velarde”
  • Monumento ao General Martin Guemes
  • Mercado Artesanal
  • Casino: funcionam dois cassinos na cidade, o de las Nubes (Caseros, 786) e Golden Dreams (S. Martin e Alberdi)
  • Peña Boliche Balderrama ou Gaucho de Guemes
  • San Lorenzo: local de residências de verão (11KM do centro)
  • Calle Balcarce (zona da estação): bares, pubs e restaurantes com música ao vivo.

Onde parar

  • Hotel Salta: Buenos Aires, 160. Fone: 54 (387) 431-0740. e-mail: reservas@hotelsalta.com
  • Hotel Marilian: Buenos Aires, 176. Fones: 54 (387) 421-6700 e 54 (387) 437-0531. e-mail: hotelmarilian@arnet.com.ar

Onde comer

  • La Vieja Estacion: Balcarce, 885. Restaurante e peña. Fone: 421-7727.
  • Café del Tiempo: Balcarce, 901. Fone 432-0771.
  • Frida: Balcarce, 935. Fone: 432-0771.
  • Restaurante Andres de San Lorenzo. Juan Carlos Dávalos e Gorriti. Fone: 492-1600, San Lorenzo.

Festividades: 17 de junho: Desfile dos gauchos saltenhos com seus cavalos de Paso Peruano-Argentino. Os gauchos saltenhos usam um poncho vermelho e preto (o vermelho é pelo sangue derramado nas lutas pela independência e o preto é o luto pela morte do caudilho General Guemes).

Terceiro dia: La Puna

Refeitos do cansaço e depois de passearmos por Salta despreocupadamente, iniciamos o caminho em direção da Puna -altiplano frio, ventoso e árido, situado entre 3.000 e 4.000msnm. Deveríamos ter madrugado, mas o corpo pediu mais um repouso. Peguei no volante e enveredamos pela RN 51, recém às 8 horas, em direção do povoado de Campo Quijano, chamado El Portal de los Andes. Era sem dúvida, um dos trajetos que criou mais expectativas, pelos desafios que enfrentaríamos.


Em plena Puna

Iniciamos a subida pela imponente Quebrada del Toro, uma garganta com paredes quase perpendiculares, marcadas pela erosão e cercada de cerros verde-amarronados e cactus gigantes.

No caminho, fizemos uma parada para conhecer as ruínas de Santa Rosa del Tastil – cidadela pré-incaica que data de 1360 a 1440.

Tínhamos pela frente 700Km de caminho de montanha. Era uma pegada de mais de 12 horas. O importante era cruzar a Cordilheira, em Paso de Jama antes de anoitecer, pois a esta hora em questão de minutos, a temperatura cai abruptamente e os riscos são grandes. Viajamos quase todo o percurso beirando os 4.000msnm de altitude. Ali iniciava a verdadeira Puna, com seu ar rarefeito. Sentimos algum enjôo, alguma dor de cabeça, mas nada que arrefecesse nosso ânimo. Tínhamos que mover-nos lentamente, tomar muito líquido e muitas vezes, agarrar-nos uns aos outros. Mascando coca, de a pouco, fomos nos aclimatando, enfrentando aquele território de ninguém, inóspito e hostil. Devido a menor pressão e a baixa densidade atmosférica, as leis da física são muito distintas das que regem no nível do mar. A 4.000msnm a água ferve a 86°C, o rendimento dos motores diminui e o corpo sofre o que eles chamam de apunamento, “mal de la montaña” (ou soroche). Conto um fenômeno comum na Puna: um pneu calibrado com 32 libras em Salta (1.280msnm), acusa em San Antonio de los Cobres (3.775msnm) 44 libras, mas sua dureza é a mesma. Como vêem tudo lá é diferente.


Chegada a San Antonio de Los Cobres

Depois de subirmos em “zig zag”, por 180Km, passamos por Abra Blanca a 4.080msnm e chegamos a um minúsculo povoado de baixas casas de barro. Nossa primeira imagem foi um cartaz da Coca-Cola dos anos 70 que anunciava: “Bienvenidos a San Antonio de Los Cobres”. Seus poucos habitantes, a maioria indígenas, trabalham nas minas de cobre da região. Averiguamos qual era o trajeto para o Viaduto de la Polvorilha (um dos principais objetivos dessa jornada), por onde passa o famoso Tren de las Nubes (percorre 438Km e funciona de abril a novembro). Todo aventureiro de trajetos off-road que se preze tem que chegar em 4x4 até embaixo dessa obra de engenharia. Um dos viadutos (ferroviário) mais altos do mundo: 64 metros de altura e 225 de comprimento e em curva.


Viaduto de La Polvorilla, Salta

As fotos tiradas nesse local percorrem o mundo nas revistas de turismo aventura. O Viaduto está a 20Km de San Antonio de Los Cobres e é o ponto mais alto da jornada, 4.200msnm. Tivemos que ter muito cuidado. Estrada estreita, só para um veículo. É obrigatório buzinar nas curvas. Muita poeira, precipícios e um sol abrasador. Nessas ermas paragens não podemos nos permitir problemas com o veículo. A 4x4 foi valente e forte o suficiente para trazer-nos de volta sem nenhum percalço. Retornamos até S. A. de Los Cobres para, por primeira vez, enveredarmos pela mágica RN40, a estrada mais famosa da Argentina (que vai de La Quiaca até Rio Gallegos, 5600Km). Percorremos 100Km através de um platô a 4.500msnm. Uma zona desabitada, sem nada para apoiar-nos em caso de uma avaria, até encontrar o asfalto no empalme com a RN52. Dirigi todo o trajeto: desde Salta, foram 8 horas, com paradas para fotografias e um rápido almoço num pitoresco “bolicho” atendido por indígenas aymaras. Era uma reta interminável, um caminho através do nada. Muita poeira e muito sol. Adrenalina pura. Os trajetos por terra me fascinam, talvez porque minha geração aprendeu a dirigir na areia e no chão batido. Em determinado momento do trajeto demos de cara com uma maldita bifurcação, para encher-nos de dúvidas. Paramos numa espécie de tapera para perguntar. Nem uma viva alma. Seria um refúgio paro os desgarrados. Recorremos aos mapas e verificamos a bússola da caminhonete que indicava a direção leste. Apostamos nela. Afortunadamente era a direção certa.

Encontramos com a RN52 que nos levaria a Susques e Paso de Jama, onde faríamos aduana. A poucos Km´s do empalme, à nossa direita apareceu uma paisagem branca parecendo uma miragem que se perdia no infinito. Eram as Salinas Grandes, imensos depósitos de sal, onde antes foi um oceano. Uma das paisagens mais impressionantes de toda a viagem, onde os sais de sódio formam figuras hexagonais que se perdem de vista.


Salinas Grandes, Jujuy

De abril a novembro, época sem chuvas, quando a superfície salina está seca, se extrai cloreto de sódio. Evitamos perder muito tempo, pois já anoitecia, e daqui para frente viajaríamos a 4.500msnm, em que a temperatura começava a cair bruscamente. Desfrutaríamos daquela marcante paisagem com mais calma durante nosso regresso. Em vinte minutos a temperatura despencou de 5°C para –5°C. Estávamos em plena primavera e os flocos de neve bordejavam nosso caminho. Com sorte, às 21 horas avistamos as primeiras luzes de nosso destino final: San Pedro de Atacama. Estávamos um pouco apreensivos e exaustos.

Amanhã comentarei sobre San Pedro e suas inúmeras atrações.

Quarto, quinto e sexto dias: Deserto de Atacama - Bolívia

Um paraíso para aventureiros e ecoturistas

O vilarejo de San Pedro de Atacama, conhecido como “El Oásis”, tem cerca de 3.000 habitantes e está a apenas 167Km da fronteira com a Argentina (Paso de Jama-Jujuy) e bem perto da fronteira com a Bolívia. Situado a 2.500 do nível do mar, é considerado a capital arqueológica do Chile.

Se você está acostumado com tudo muito certinho, sem duvida, esse não é o destino certo.

Pesquisando na internet li algo em que concordo plenamente. Nessas paragens, os mais velhos rejuvenescem ou esquecem a idade, porque energia é bagagem indispensável, junto com boa dose de flexibilidade. Confesso que me surpreendi comigo mesmo. Minto, se não admitir que algumas vezes fiquei insone, pensando se não estava exagerando na dose. Um pouco de medo que, às vezes, costuma nos paralizar, diante de decisões importantes. Era viver ou deixar para mais tarde. Preferi ir em busca do que é essencial para mim: emoções.

Me arrependo de não ter ido mais fundo. A viagem que planejei incluía o Salar de Uyuni (o maior salar do mundo), um trajeto de 4 dias, somente feitos em 4x4, nas possantes Toyotas Land Crusier. Os pernoites são em refúgios com pouco conforto e a temperatura à noite beira –20°C. Não existem estradas demarcadas. Os choferes bolivianos dirigem no olhômetro, esquivando-se dos precipícios. Um dos pernoites seria em um hotel construído somente de sal. Se meu filho Martin não tivesse compromissos de estudo, juro que iria. Meus companheiros, tenho certeza que voltarão comigo lá.

O Deserto do Atacama é um destino com paisagens surrealistas, únicas no mundo, devido a variedade de imagens, que nos aquecem a alma. Trezentos e sessenta dias de céu azul, ausência de chuva, sendo considerada a região mais árida do mundo. As temperaturas são contrastantes, variando de 35°C de dia a –20°C à noite. Dependendo de seu gosto por aventura o ideal é despender de 3 a 5 noites, tendo San Pedro como base.

As ruas do povoado são de chão batido. As casas são baixas, de barro (adobe), e os tetos feitos de uma mistura de barro e palha. Tudo lá é básico. O que conta são as emoções. Os restaurantes e bares, quase todos com suas fogatas (espécie de lareira para aquecer suas noites frias), estão lotados e o atendimento é bom. Todos estão na mesma balada.

Inicie com os programas mais suaves. Aclimate-se primeiro. Uma boa idéia é iniciar com um banho nas Águas Termais de Puritana e à tarde tente um por de sol no Valle de la Muerte e Valle de la Luna. Ficam bem perto da cidade. O vento forte desnorteia até os mais aprumados. As imensas dunas, crateras e abismos são resultado de uma erosão milenar. É como estar em outro planeta. A beleza é crua.


Valle de La Muerte

Contrate uma excursão para as Lagoas Altiplanicas e o Vulcão Licancabur na Bolívia. Saída às 8h00 e volta às 14h00. As paisagens são de tirar o fôlego. Para nós, o melhor da viagem. Dezenas de 4x4 com viajantes de todas as idades e dos mais distantes lugares do mundo cruzam o deserto levantando uma poeira infernal. Na hora de fazermos aduana na Bolívia parecia uma Babel.Uma confusão de idiomas. Todos iam para o Salar de Uyuni.

Depois de descansar um pouco visite o Salar de Atacama (das 16 às 19 horas, asfalto – vá em carro próprio), localizado a 70Km do povoado, na direção de Toconao. O por do sol no Salar é a grande atração. Confira nossas fotos. O Salar está localizado no Parque Nacional dos Flamingos. Há várias lagoas chamadas de chaxas, dentro do parque, habitadas por flamingos cor-de-rosa. O Salar é formado por sais de potássio e contêm a maior reserva de lítio do mundo. As crostas de sal chegam até a 20cm de altura.

Não volte sem conhecer as lagoas altiplanicas de Miscanti e Meñique (do lado chileno). Contrate excursão. A estrada é ruim. Muitos solavancos, mas será recompensado com o colorido das lagoas cercadas de vulcões a 5600 metros de altura. Aproveite para banhar-se na Laguna Sejar e boiar como se estivesse no mar Morto.


Gêisers del Tatio

Já aclimatado, enfrente os Gêiseres de El Tatio. Vapores com cheiro de enxofre emanam de dezenas de crateras e se elevam a uns dez metros de altura. A temperatura das emanações chega a 800°C. As excursões saem às 3 ou 4 horas da madrugada, para chegar lá as 7h00, hora em que o espetáculo está no auge. Quando partimos enfrentamos um frio de –15°C. É uma prova para o corpo. O primeiro contato com o vento frio da manhã, ao sair do ônibus, oprimia o peito e tirava o fôlego. Depois de duas taças de café bem quente fomos nos afirmando.

Como vêm, são programas que sacodem o esqueleto de qualquer vivente, mas à noite, com certeza, recuperará as forças nos excelentes restaurantes de nível internacional.

Onde parar em San Pedro de Atacama

  • Hotel Altiplânico: Domingo Atienza, 282. Fone:(56-55) 851212. E-mail: contacto@altiplanico.cl - Web site: www.altiplanico.cl
  • Hosteria San Pedro de Atacama: Toconao, 460. Fone: (56)(55) 851011 - E-mail: sanpedro@diegodealmagrohoteles.cl
  • Hotel Corvatsch – Licancabur, 191 – Fone- (56)(55)851101 - E-mail: corvatsch@sanpedroatacama.com - Web site: www.corvatschchile.cl
  • Hotel Algarrobo (Pub e restaurante): Calle Plaza, 315-B. Fone (56-55) 851345 - E-mail: consultas@algarrobohotel.cl

Onde comer

  • Café Export (Bed & Breakfast): Caracoles esquina Toconao. Fone: (56-55) 851.547
  • Carolina Albornoz e Emanuelle Rowe
  • Cafeteria Italiana: Bar, comida regional e internacional. Música ao vivo
  • Café Adobe: Caracoles, 211. Fone: 851132
  • La Estaka: Caracoles, 259. Fone: 851201
  • La Casona: Caracoles, 195. Fone: 851004
  • Milagro: Info & restaurant. Caracoles, 241. Fone: 851515

Agências de Turismo

  • Atacama Conexion: Caracoles esquina Toconao. Fone: 851421. Web site: http://www.atacamaconexion.com
  • Desert Adventure: Caracoles. Fone: 851067. Web site: http://www.desertadventure.cl
  • Colque Turismo

Sétimo dia: Quebrada de Humahuaca

Hoje iniciamos o retorno. Levantamos mais tarde, pois, o corpo impunha um bom descanso. Nos despedíamos do Bed & Breakfast Incahuasi, lugar que nos abrigou durante a estada no deserto. Era super básico e a localização não era boa, mas o importante é que nos divertimos muito, deixando de lado alguns contratempos.

Fizemos aduana (a aduana chilena fica em San Pedro) às 9 horas e iniciamos a subida íngreme da Cordilheira. Fazia uma manhã típica de primavera com um céu muito azul. Aos poucos foram aparecendo manchões de neve que refletiam os raios do sol. Viajamos em linha reta na direção leste pela RN 52. Pensávamos parar novamente nas Salinas. Elas estavam mais impactantes que nos dias anteriores, pois o sol mais forte formava um resplendor sobre a superfície branca do sal. Fotografamos muito, já que a paisagem merecia.

Fizemos um break para almoçar e para abastecer no posto, restaurante e hotel Pastos Chicos, em Susques - RN52. Uma referência importante para quem viaja por essas paragens (é o último lugar antes da fronteira para comer e abastecer). Fomos atendidos cordialmente pela gerente, D. Helena, que nos recomendou um bife de llama (especialidade da casa).


Hora do lanche

Seguimos viagem em direção da Quebrada de Humahuaca, iniciando a descida pela impressionante Costa del Lipán (4.000msnm), uma das imagens mais bonitas da jornada.

Chegando a Purmamarca e demos de cara com o Cerro los Siete Colores, a principal atração turística da região. A zona é rica em minérios de ferro e cobre. Algo que surpreende ao visitante são as cores dos cerros, devidas à argila amarela e vermelha que datam de eras em que tudo era coberto pelo oceano. São poucos os lugares do mundo que oferecem um registro tão prolongado do passado da terra. Estas rochas albergam testemunhas das formas de vida mais antigas do planeta.


Humahuaca

A Quebrada de Humahuaca é um vale profundo lavrado pelo Rio Grande, na Cordilheira Oriental, onde tem 120 km de extensão. O estreito fundo do vale não passa dos 3Km e, é totalmente usado para cultivo da terra. A Quebrada se encontra sobre o Trópico de Capricórnio, pelo que goza de altos níveis de radiação solar. Apesar disto e principalmente devido à altura, o clima é fresco (temperatura média: 7°C em julho e 17°C em dezembro). Foi decretada Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade, não só pelas belas paisagens mas pelo conjunto do que ela significa para aformação de um povo.Os indígenas na sua maioria aymaras e quéchuas mantém vivas suas tradições, suas crenças, sua música e seu amor pela terra que lhes dão o sustento desde os tempos imemoriais de seus antepassados – os Incas.

As escarpas da montanha são virgens, onde abundam os cactus gigantes (cardones - cactus). Estes foram e são usados para a construção dos tetos, bancos, portas das igrejas e casas.


Cruzando o Trópico de Capricórnio

Os lugares que mais nos tocaram na região foram a imponente paisagem da descida da cordilheira pela Costa del Lipán, o povoado de Purmamarca (o mais típico da Quebrada) com suas ruelas estreitas, suas ruas empedradas , suas casas baixas de adobe com as aberturas pintadas de cores vivas e o Cerro de Siete Colores.

Depois de visitarmos os outros históricos vilarejos da Quebrada nos instalamos no Hotel Spa Termas de Reyes e descansamos dois dias de todas nossas correrias pela Cordilheira dos Andes.

Lugares históricos de interesse

Todo o circuito histórico se faz através da RN9 (podem ser vistos em um dia).
  • Purmamarca, parada do Camino del Inca: Aymara, Pueblo de la Tierra virgem.
  • Capela de 1648: pinturas cuzquenhas
  • Cierro de Siete Colores: único na região e no resto do país.
  • Tilcara, Pucará de Tilcara: notável povoado indígena Pré-Colombiano (1594).
  • Hornillos: Museo (antiga posta)
  • Huacalera, 65Km de Jujuy: igreja do século XVIII
  • Tumbaya: igreja de 1796.
  • Uquia: igreja de 1691.

Humahuaca, fundada em 1594

  • Visitar: Monumento a la Independência
  • Igreja Candelária (1694)
  • Estúdio Museo Ramoneda.

San Salvador de Jujuy

  • Fundada em 1593 (300.000 habitantes)
  • Visitar: Cabildo
  • Casa de Governo, todas localizadas na praça Belgrano
  • Catedral

Onde parar ao visitar a Quebrada

  • Hotel Spa Termas de Reyes - Villa Jardim de Reais
    20Km de Jujuy. Fone: 54 (388) 4922522, Ruta Provincial N° 4.
    E-mail: info@termasdereyes.com
    Web site: www.termasdereyes.com

Onde comer em San Salvador de Jujuy

  • Restaurante Viracocha: comida regional
  • Independência

Nono dia: Iruya, um vilarejo mágico

O acesso a este vilarejo tem uma peculiaridade; ele se encontra no norte da província de Salta, mas chegamos até lá através da Quebrada de Humahuaca, que está na província de Jujuy. Partimos de nosso Hotel “Termas de Reyes” e recorremos toda a Quebrada (140Km), sempre pela RN9 até a placa que indicava a direção de Iruya - R133. O trecho localizado na província de Jujuy está abandonado. Muitas pedras, pois o caminho segue o leito de um rio de montanha, sendo impossível fazer o percurso (50Km) em menos de 2 horas. Todo cuidado é pouco e é necessário estar atento às condições do tempo no dia da viagem. Em questão de horas os rios transbordam formando grandes corredeiras. Chegando no limite de Salta começa a aparecer o mais interessante da viagem. O caminho de chão batido e arenoso nos permite melhorar a média. A paisagem é de tirar o fôlego. No ponto culminante, a 4.300msnm, nos apunamos um pouco e aproveitamos para uma parada.


Iruya, vilarejo incrustado na montanha

A descida até chegar a Iruya é gradual e se podem ver alguns ônibus como pequenos pontos subindo o caminho em caracol. A paisagem vai mudando de cor entre tons ocres e avermelhados. Depois de ler os relatos de viajantes e admirar as fotografias desse recanto perdido nas entranhas do mundo fiz o sacrifício e encarei com a 4x4 aquele trajeto. No início era uma quantidade de pedras que assustava. Pelo retrovisor observei a fisionomia de preocupação de nosso companheiro Helinho, homem de campo, acostumado com as agruras dos bretes da fronteira. Minha vontade era tão grande de conhecer Iruya que assumi o volante e pensei que, “se tem que quebrar que quebre comigo”. Senti que valeu arriscar quando vislumbramos a pequena capela do povoado com sua cruz à frente.


Capela de Iruya

Fundado em 1763, este típico povoado de montanha se encosta às margens do rio Iruya, palavra que deriva do quéchua iru, nome de uma planta do lugar, e yac, que significa abundante. Rodeado de montanhas, seus habitantes guardam suas raízes e preservam antigas tradições. Suas ruelas empinadas e cuidadosamente empedradas (para evitar a erosão) são estreitas e de pronunciada pendente. As casas são de adobe, baixas, com portas coloridas e com amplos pátios com flores e arvores frutíferas, uma típica arquitetura pré-colombiana. Frente à igreja um mirante dominava a calmaria do cenário do vale encravado em cerros avermelhados de 2.200msnm. No primeiro domingo de outubro Iruya se veste de festa para festejar a sua patrona - Nossa Senhora do Rosário.


Ruelas empedradas, íngremes e estreitas

Como chegar

Ônibus da Línea Mendoza partem de Humahuaca às 10h30 para Iruya com passagens de 9 pesos de ida e 16 de ida e volta com chegada às 13h30.

Onde parar

  • Hostería de Iruya: preço: 90 pesos la doble - Web site: www.hosteriadeiruya.com.ar - Fone: 3887-15407-0909
  • Hostal Federico III: res. B, preço: 3 camas 45 pesos - Gentilmente atendido pela proprietária, Sra. Gloria Federico - Fone: 387-1562-9152, 1563-0019 - Web site: www.cafedelhostal.com.ar
  • Hopedaje Alcira Alemán: (S/C), preço: 10 pesos la cama - Fone: 387-1562-9039

Onde comer

  • Café Del Hostal, fone: 1563-0079

O que visitar nos arredores

  • San Isidro de Iruya: povoadinho de apenas 350 habitantes entre cerros de 2.800msnm e 23 cores. Foi esquecido de colocar nos mapas. O bairro mais importante, Pueblo Viejo, não tem ruas. Existe só um Sendero que passa em frente à pitoresca igreja. Dizem que San Isidro é mais antiga que Iruya. Distância: 8 km de Iruya.
  • Como ir: procure por Eugenio Abán que por 30 pesos leva 4 pessoas em sua caminhonete. O caminho é através do leito do rio.
  • Sítio arqueológico: ruínas indígenas de Titiconte. Sendero de difícil acesso (7Km).

Informações úteis

  • O estado dos caminhos na Argentina é muito bom. Percorremos 5000Km e somente tivemos problemas na RN16, de Resistência a Salta, mais ou menos 70Km entre Pampa de Los Guanacos e Taco Pozo. Estão recuperando o caminho.
  • Não tivemos problemas com nenhuma Polícia Caminera e os guardas de trânsito foram atenciosos.
  • Cheque seus mapas e veja se estão atualizados. Os mapas do ACA (Automovil Club Argentino) são confiáveis.
  • Os pedágios são baratos.
  • Se vai a lugares inóspitos, cheque as localidades que contam com postos de combustível.
  • Na altitude não é qualquer celular que funciona.
  • Faça os trajetos mais perigosos (montanha, deserto) durante o dia.
  • Se possível carregue uma bússola ou GPS. Podem ser de grande valia.

Lagunas Altiplanicas, Bolivia (Janeiro de 2010)